Crédito em atraso dos brasileiros bate recorde e alcança R$ 247,6 bilhões, no primeiro quadrimestre de 2026
Volume cresceu 50,7% em um ano; avanço equivale a praticamente todo o estoque registrado no País em 2018
Quase R$ 250 bilhões. Esse era o tamanho do montante de créditos em atraso, por mais de 90 dias, no sistema financeiro até abril, segundo um levantamento com base nos dados do Banco Central (BC).
É o maior volume de recursos em atraso desde que a instituição começou a mensurar a massa de créditos em atraso no País, em 2004, já considerando a inflação da série. Mais do que isso, o montante representa um aumento significativo de 50% em relação ao mesmo período de 2025, quando era de R$ 164,3 bilhões.
Para se ter uma ideia, o aumento observado em um ano corresponde, sozinho, a praticamente todo o volume de crédito em atraso registrado no País em 2018 (R$ 84,7 bilhões) . Em maio, a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) mostrou que 74,2% das famílias na capital paulista estavam endividadas, o maior nível em quatro anos. A taxa era de 72,9% em abril — em maio do ano passado, esse número chegava a 71,2%, aumentando o risco de mais lares inadimplentes.
Mas... por quê?
A taxa Selic elevada, em primeiro lugar, fez com que uma parcela significativa da renda das famílias fosse destinada ao pagamento de juros, o que deixou menos espaço para a quitação de outras contas. Além disso, a inflação — que voltou a ganhar força neste ano, sobretudo em meio aos reflexos da guerra no Irã com desdobramentos sobre os preços dos combustíveis e, consequentemente, dos alimentos, transportes e serviços — pressionou os consumidores a atrasarem as parcelas e prestações para manter o consumo básico, como comida, transporte e moradia.
Soma-se a isso o crescimento acelerado das apostas esportivas, que passou a disputar espaço no orçamento dos lares e pode ter reduzido os recursos destinados ao pagamento de dívidas.
Atrasos avançaram no interior
Todos os Estados registraram recorde no volume de crédito em atraso. A Região Centro-Oeste apontou a maior variação (69,3%), seguida por Norte (62,7%), Sul (66,1%), Nordeste (47,4%) e Sudeste (37,9%).
Dentre os Estados que obtiveram maior alta em relação a 2025, destacam-se Tocantins (105%), Rio Grande do Sul (95,7%), Maranhão (93,5%), Mato Grosso (83,1%) e Goiás (81,3%). Já Distrito Federal (25,6%), Rio de Janeiro (26,6%) e Rio Grande do Norte (30,1%) apresentaram crescimento abaixo da média.
Além dos fatores macroeconômicos citados, nos Estados que registraram as maiores altas, a forte variação tem um componente específico: como a renda local depende, majoritariamente, da atividade agropecuária, as famílias ficam mais vulneráveis às oscilações do custo de vida quando a rentabilidade do campo diminui. Com isso, sobra menos dinheiro para honrar os compromissos financeiros.
Em termos de participação no atraso do Brasil, o Estado de São Paulo respondeu, sozinho, por 22,2%, embora tenha crescido 36,8%, abaixo da média nacional. Somados, os cinco maiores Estados — São Paulo, Minas Gerais (8,7%), Goiás (7,3%), Rio Grande do Sul (7,2%) e Rio de Janeiro (7,1%) —corresponderam a 52,6% do total.

